Seis irmãos... duas mulheres e quatro homens.
Meus tios, criados na roça, no cabo da enxada, como costumavam dizer, seguiram seus rumos na vida adulta, dentro da área da construção civil.
Dedicaram se a edificar as moradas dos sonhos, nos cenários por onde passaram. Os dois irmãos mais velhos seguiram para a cidade grande . Os outros dois permaneceram nas pequenas comunidades rurais.
O caçula dos meus tios, o tio Horácio, ainda solteiro, volta e meia, chegava à nossa casa para os finais de semana.
Vaidoso, cheio de modernidades, gostava de calçar botas de couro lustradas com as graxas para sapatos. Ao chegar à morada da irmã mais nova, sentava se num banquinho, bem no sol e, ali permanecia desvelando os brilhos para os seus pés. Brilhos que descortinavam a sua alegria de viver.
Tio Horácio cuidava de mim, a sobrinha mais velha, ainda na primeira infância.
Seus sapatos representavam o paradigma do bom gosto, da moda, da elegância. Com essa alegria, presenteava a sobrinha com sapatos de verniz, cheios de laços, sem embaraços.
Mas a menina, acostumada aos tamanquinhos, na roça, caminhava um pouquinho com os elegantes sapatos, os pezinhos enchiam de bolhas... o calcanhar era o preferido dos calos d'agua.
Vários dias seguidos com dores nos pés calejados e resistentes à modernidade. Bom mesmo... era andar descalça, com plena liberdade para sentir a terra e os sorrisos da Natureza. As dores? ...esquecidas não eram, mas desafiadoras para a menina que buscava ler o mundo.
Lições do tempo...
a elegância tem preço!
Liberdade...
é o sal da Vida!
Arte GUTO
Foto Zaciss