VELHA. INFÂNCIA
À beira do rio era a nossa morada.
Meu pai trabalhava na estação do trem na função de guarda-chaves. Seu trabalho contemplava uma espécie de turno... dia sim, dia não ...folgava. Nesses intervalos tecias as tarrafas, os covos, cuidava do quintal, da horta, da roça de subsistência. Cuidava do paiol, dos porcos e galinhas, do viveiro dos peixes e pescava. Pescava muito. Construia suas canoas com um único tronco. Subia rio acima com a canoa vazia. Voltava cheia de peixes. Os peixes grandes iam para o viveiro, uma espécie de psicultura às avessas. A miuçalha, como dizia a minha avó, ia direto para a bacia, geralmente lambaris, guarus, bagres. A bacia era destinada às mãos da criançada... e limpava e limpava a peixaiada. Não tinha fim. Enquanto isso, as mulheres adultas limpavam os cascudos. Peixe limpo, frigideira à espera e o pirão quase pronto. Normalmente, os tios se juntavam à comilança e a festança seguia noite adentro. A contação de histórias dava o tom às conversas. Para as crianças o fantástico rondava o cenário. Não existia rádio ou televisão... a visão do mundo misterioso, do desconhecido, rondava o imaginário.
Nessa toada, a casa se preenchia de muitos irmãos. A cada dois anos nascia um bebê. Sou a primogênita, depois chegaram três meninos. Quando a outra menina chegou, perdi o meu trono de única menina junto à molecada. Dai pra frente... meninos e meninas se alternaram junto à cegonha... onze filhos!
O mundo mudou, mas a sabedoria daqueles tempos acompanha nossas vidas.
Vida simples, bem vivida!